quarta-feira, 7 de julho de 2010

Trânsito

Urgência nas avenidasUrgência nas avenidas


Foto: Flávia Parreira





Não há como negar. A dificuldade de locomoção dos goianienses aumenta a cada dia. Tanto automóveis, como pedestres, ciclistas e deficientes sofrem com a falta de planejamento no trânsito da capital.
O Movimento Nacional para a Democratização do Trânsito (MNDT), propõe um espaço a favor de discussões que não estejam ligadas somente a especialistas, mas que possibilite um controle social, o exercício da cidadania e o envolvimento da população. Neste modelo, não são mais os veículos automotores que detém o privilégio. Mas sim, quem não precisa de um automóvel, ou quem inevitavelmente, em algum momento do dia, se torna pedestre.
O projeto de mobilidade sustentável também é um forte aliado para a correção do tráfego. Ele estabelece intervenções nos espaços construídos, que corrijam a situação caótica, nas áreas de expansão urbana, e evita a multiplicação do caos.
Medidas como estas possibilitam o desenvolvimento econômico, e não anulam a indústria automobilística geradora de empregos e auxiliadora de vários segmentos sociais. A viabilidade da proteção ao meio ambiente, com indicadores da capacidade ambiental do local como: limites de ruídos e qualidade do ar são eficazes neste modelo. A justiça social também democratizaria o trânsito das cidades, e não permitiram que os menores fossem tão prejudicados.
O doutor em engenharia de transporte, professor do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), Universidade Católica de Goiás (UCG) e da Universidade Estadual de Goiás (UEG) Beijamim Jorge de Araújo, afirma que o trânsito é composto por três eixos: educação, engenharia e fiscalização.
Araújo comenta que o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) prevê uma orientação para as crianças no início do ensino básico até a inserção no ensino superior. Segundo o ele, não faltam verbas para a aplicação da lei, pois também já foi estabelecido que uma parte da arrecadação das multas aplicadas nas cidades seja direcionada para educação.
Mas na prática isso não ocorre. As escolas públicas não conseguem implantar o básico para a formação de um cidadão, quem dirá então cumprir uma demanda que é obrigação de outro órgão. Esse problema se reflete na nova geração. Uma pesquisa realizada pela UCG, demonstra que, em um grupo de 10 jovens, de 18 a 23 anos, 4 dirigem depois de beber. Nesse mesmo grupo, 3 admitem dirigir sem a Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
Se há 10 anos atrás, quando foi implantado o código, a exigência houvesse sido comprida, certamente o número de mortes no Brasil não seria de 23 pessoas em um grupo de 100 mil. Mas não é preciso ir tão longe. Quem nunca viu meninos de 10, 12, anos dirigindo mobiletes pelas ruas da capital? Esse é um ponto muito delicado. No caso de atropelamento, fica difícil encontrar o responsável, pois ele não tem se quer uma habilitação. O CTB exige a CNH de categoria ACC para que um cidadão conduza qualquer veículo de até 70 cilindradas. Por isso, ao contrário do que muitos pais pensam, ao permitir que os filhos dirijam essas motocicletas, e coloquem a vida de outros em risco, é necessário se habilitar.
Em João Pessoa, capital do estado da Paraíba, foi aprovada uma lei de criação do vereador Waldir Dowsley (PRP), que prevê a obrigatoriedade do ensino de noções básicas sobre o trânsito nas escolas. Com isso, os alunos receberão orientações no início da quarta série do ensino fundamental. Os professores serão ainda, orientados por equipes de educação da Superintendência de Transporte e Trânsito da cidade (STTrans).
Medidas como essas são válidas desde que o problema não seja tratado de maneira vertical. Ou seja, é preciso um planejamento que impossibilite a exclusão do pouco que é transmitido às crianças. As matérias básicas não podem sofrer perdas com a chegada de uma complementar. Pois com isso, o problema fica apenas mascarado.

Foto: Flávia Parreira






Mas a educação é somente um elemento. Também existe a engenharia e infra-estrutura da Superintendência Municipal de Trânsito (SMT). Para o professor, a “SMT funciona em área restrita, os prédios não são adequados e é preciso ainda renovar o quadro de engenheiros”.
Um ambiente de trabalho é o mínimo que se espera para realizar atividades eficazes. É impossível concretizar o sincronismo dos semáforos, sem equipamentos adequados e uma estrutura física. Além disso, a superintendência funciona com um número pequeno de funcionários que impossibilita até mesmo a realização de atividades educativas.
Araújo explica que uma central de controle e um metrô de superfície -que deveria ter sido implantado quando a cidade alcançou o número de 500 mil habitantes- são adequados e cabem no orçamento, pois o ministério das cidades apóia a implementação. A prefeitura de Goiânia criou algumas medidas, que a principio minimizam as conseqüências do transito da capital. Entre elas estão os viadutos da praça do ratinho, e o elevado da avenida T-63 com avenida 85. Essas medidas são essências, pois as praças semáforos e elevados são eficazes até que se atinjam sua capacidade de organizar o tráfego.
Outra questão ligada diretamente à fluidez é a fiscalização. “Deve multar sem dó, porque ninguém vai conscientizar sem antes ser punido”, pontua o Doutor. As pessoas têm que visualizar as conseqüências de seus atos. Ultrapassar os limites de velocidade, furar sinais, e estacionar em fila dupla, são ações particulares que priorizam um condutor e infringem os limites do ser humano. A fiscalização então, lembrará minimamente a esses que o trânsito não é individual e sim coletivo.
Lentamente a população percebe a importância e a necessidade de se investir na melhoria do trânsito. Isso não deve ser um plano de quatro anos, mas sim planos de governo que tenham uma seqüência e não esteja composto por interesses pessoais e financeiros. O fato é que se for adiado por muito tempo, causará mais vidas, percas e estragos para os cidadãos.
LIXO DE VIDA


Manhã de terça feira. Para milhões de brasileiros esse é mais um dia pacato e cheio de fatos previsíveis. Mas para mim, ingênua acadêmica de jornalismo, a terça feira cheirou mal, teve um gosto horrível, foi o mais quente do ano e ainda assim eu sempre me lembrarei com alegria dos momentos que passei.
Estou falando de como é suportar o dia como papeleira, ou se preferir, coletora de materiais recicláveis. Combinei com a coletora Maria José, local e horário que nos encontraríamos. Esperei, esperei e esperei. Sem saber que sua filha caçula havia passado a noite inteira com dor no ouvido e febre alta, logo pensei: ela não virá. Para calar a minha boca, no mesmo momento ela apareceu. Que bom! Depois das explicações e de um dedinho de prosa com os amigos de profissão da Maria José, pegamos o carrinho e
fomos a luta.
Me propus a realizar a difícil tarefa de puxar o carrinho. Enquanto isso, minha chefe abria o lixo e pegava o que servia para a reciclagem. Nesse momento, as donas de casa às vezes felizes, às vezes não, depositavam o lixo doméstico nas calçadas de suas residências. Devido a grande quantidade de sacolas cheias de coisas inesperadas, tive que estacionar a locomotiva recipiente e ajudá-la. Merda! O primeiro saco que abri, e com toda vontade enfiei a mão, anti-braço, braço e quase o ombro, estava cheio de um tipo de papel que os seres humanos utilizam após realizarem os seus dejetos, ou seja, coco. Isso mesmo, eu literalmente coloquei a mão na bosta. Mas o pior estava por vir.
Alguns metros depois retomei a coragem e vasculhei outras sacolas. Garrafas, sapatos, embalagens de leite, eletro domésticos, moveis de decoração, bolsas, papel higiênico usado e tudo que pode ser rejeitado encontra-se no lixo. A função de pessoas como a Maria José, é possibilitar a reutilização desses matérias. O jornalista Charles Daniel demonstra em seu livro, Reciclagem e Sobrevivência, uma pesquisa realizada pelos gestores ambientais Alexander de Araújo e Lourivan da Silva em 2008. Ela relata a existência de três mil e 500 pessoas, destas, 64% moram de aluguel, 55% têm três filhos ou mais, 39% são analfabetos, 65% recebe um salário ou menos, e 69% são a tração do carrinho.
Minha chefe, não é diferente. Ao longo do caminho ela me conta como aos 42 anos, encontrou nessa profissão uma forma não muito fácil de continuar a vida. Segundo ela, o que recebe cobre a tarifa de água e energia. “Ainda bem que a dona do barraco me deixa morar sem pagar o aluguel”, agradece Maria. Quando um caminhão passa por nós, ela lembra do atropelamento que a 32 anos provocou a morte de sua mãe. Isso propiciou que ela entrasse nesse emprego nada fácil. Ao longo do caminho as pessoas sempre me olhavam. Em determinada momento um homem branco e aparentemente proprietário de um carro bacana, me chamou e disse: moça você está nesse emprego por que não tem outra opção? Eu pensei rapidamente e respondi em tom de ironia: não eu faço porque gosto. Ele disse: eu trabalho com eventos, se você quiser eu posso lhe arrumar algo melhor. Nessa hora percebi que a Maria José afastou-se de mim “para não queimar meu filme”, então encerrei a conversa dizendo que não precisava e prossegui com o trabalho.
Nessa terça a temperatura ambiente era agradável. Não para mim! Eu senti tanto calor que quando conversava com a Maria a saliva parecia escorre de minha boca. Ao passar das horas, minha chefe começou a queixar de fome, dores na perna e uma forte enxaqueca. Ela é deficiente visual do olho direito, por isso sentia tanta dor. “O médico disse que é preciso descansar as vistas e não pegar sol na cabeça, mas se eu fizer isso não vou ter o que comer, e eu gosto muito de carne”,enfatiza.
No lixo tem muitos alimentos. Às vezes eles apodrecem e entram em estado de decomposição. Algumas pessoas não separam o lixo em casa e o meu trabalho é recolher o que ainda pode ser recuperado ou reaproveitado. Que nojo! Sem dúvida, o coco, o sol e os olhares das pessoas, não foram piores que a sensação de ter um daqueles bichinhos que comem comida podre no meu braço. Que cheiro horrível! Tentei disfarçar, mas não deu. A Maria começou a rir e a rir sem parar. Uma vontade imensa de vomitar se apossou de mim. Então minha chefe disse: você coloca a mão em cada coisa! Nesse momento percebi que o dinheiro no final do dia era essencial, mas nem por isso eu precisava realizar a difícil tarefa de separar os recicláveis das coisas empobrecidas.
Passado esse momento fomos ao depósito para pesar o que pegamos e receber o sacrificado dinheirinho. Os quase 70 quilos que puxei me renderam muitas dores e preciosos 10 reais. Quando voltava para minha realidade, conclui que apesar de todas as dificuldades que essa classe enfrenta, ela não perdeu a dignidade e ao contrário de mim se reserva a não colocar as mãos em determinados objetos descartados.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Cidadão de Papelão

“O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, nem voz
Nem terno, nem tampouco ternura
À margem de toda rua, sem identificação, sei não
Um homem de pedra, de pó, de pé no chão
De pé na cova, sem vocação, sem convicção

À margem de toda candura
À margem de toda candura
À margem de toda candura

Um cara, um papo, um sopapo, um papelão

Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura

O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, à sós
Nem farda, sem tampouco fartura
Sem papel, sem assinatura
Se reciclando vai, se vai

À margem de toda candura
À margem de toda candura

Homem de pedra, de pó, de pé no chão

Não habita, se habitua
Não habita, se habitua”


O Teatro Mágico

terça-feira, 29 de junho de 2010

Uma parte da cidade.


Depois de dois anos de criação do programa Goiânia Coleta Seletiva da prefeitura municipal de Goiânia, ainda se pode ver muitos coletores de matérias recicláveis nas ruas da capital. O projeto inicial foi desenvolvido, entre outros, para gerar uma fonte de renda e um pouco mais segurança no trabalhão dos catadores. Mas muito se falou e pouco se fez!

Uma pesquisa realizada pelos gestores ambientais Alexander de Araújo e Lourivan da Silva em 2008 relata a existência de três mil e 500 pessoas, destas, 64% moram de aluguel, 55% têm três filhos ou mais, 39% são analfabetos, 65% recebe um salário ou menos, e 69% são a tração do carrinho.

A Classificação Brasileira de Ocupação (CBO) reconhece a profissão no Brasil, entretanto ela ainda não recebe atenção necessária. Segundo informações do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), 60% do trabalho no país todo é realizado pelos coletores e ainda assim eles vivem em condições subumanas nos depósitos, nas ruas e como péssimos salários que gira em torno de 140 reais.



Apenas crianças

Tarde de domingo. Para os meus colegas uma oportunidade, talvez, de aprender um pouco mais de fotografia, para mim, apenas um momento de aprender um pouco mais do que é a vida.