quarta-feira, 7 de julho de 2010

LIXO DE VIDA


Manhã de terça feira. Para milhões de brasileiros esse é mais um dia pacato e cheio de fatos previsíveis. Mas para mim, ingênua acadêmica de jornalismo, a terça feira cheirou mal, teve um gosto horrível, foi o mais quente do ano e ainda assim eu sempre me lembrarei com alegria dos momentos que passei.
Estou falando de como é suportar o dia como papeleira, ou se preferir, coletora de materiais recicláveis. Combinei com a coletora Maria José, local e horário que nos encontraríamos. Esperei, esperei e esperei. Sem saber que sua filha caçula havia passado a noite inteira com dor no ouvido e febre alta, logo pensei: ela não virá. Para calar a minha boca, no mesmo momento ela apareceu. Que bom! Depois das explicações e de um dedinho de prosa com os amigos de profissão da Maria José, pegamos o carrinho e
fomos a luta.
Me propus a realizar a difícil tarefa de puxar o carrinho. Enquanto isso, minha chefe abria o lixo e pegava o que servia para a reciclagem. Nesse momento, as donas de casa às vezes felizes, às vezes não, depositavam o lixo doméstico nas calçadas de suas residências. Devido a grande quantidade de sacolas cheias de coisas inesperadas, tive que estacionar a locomotiva recipiente e ajudá-la. Merda! O primeiro saco que abri, e com toda vontade enfiei a mão, anti-braço, braço e quase o ombro, estava cheio de um tipo de papel que os seres humanos utilizam após realizarem os seus dejetos, ou seja, coco. Isso mesmo, eu literalmente coloquei a mão na bosta. Mas o pior estava por vir.
Alguns metros depois retomei a coragem e vasculhei outras sacolas. Garrafas, sapatos, embalagens de leite, eletro domésticos, moveis de decoração, bolsas, papel higiênico usado e tudo que pode ser rejeitado encontra-se no lixo. A função de pessoas como a Maria José, é possibilitar a reutilização desses matérias. O jornalista Charles Daniel demonstra em seu livro, Reciclagem e Sobrevivência, uma pesquisa realizada pelos gestores ambientais Alexander de Araújo e Lourivan da Silva em 2008. Ela relata a existência de três mil e 500 pessoas, destas, 64% moram de aluguel, 55% têm três filhos ou mais, 39% são analfabetos, 65% recebe um salário ou menos, e 69% são a tração do carrinho.
Minha chefe, não é diferente. Ao longo do caminho ela me conta como aos 42 anos, encontrou nessa profissão uma forma não muito fácil de continuar a vida. Segundo ela, o que recebe cobre a tarifa de água e energia. “Ainda bem que a dona do barraco me deixa morar sem pagar o aluguel”, agradece Maria. Quando um caminhão passa por nós, ela lembra do atropelamento que a 32 anos provocou a morte de sua mãe. Isso propiciou que ela entrasse nesse emprego nada fácil. Ao longo do caminho as pessoas sempre me olhavam. Em determinada momento um homem branco e aparentemente proprietário de um carro bacana, me chamou e disse: moça você está nesse emprego por que não tem outra opção? Eu pensei rapidamente e respondi em tom de ironia: não eu faço porque gosto. Ele disse: eu trabalho com eventos, se você quiser eu posso lhe arrumar algo melhor. Nessa hora percebi que a Maria José afastou-se de mim “para não queimar meu filme”, então encerrei a conversa dizendo que não precisava e prossegui com o trabalho.
Nessa terça a temperatura ambiente era agradável. Não para mim! Eu senti tanto calor que quando conversava com a Maria a saliva parecia escorre de minha boca. Ao passar das horas, minha chefe começou a queixar de fome, dores na perna e uma forte enxaqueca. Ela é deficiente visual do olho direito, por isso sentia tanta dor. “O médico disse que é preciso descansar as vistas e não pegar sol na cabeça, mas se eu fizer isso não vou ter o que comer, e eu gosto muito de carne”,enfatiza.
No lixo tem muitos alimentos. Às vezes eles apodrecem e entram em estado de decomposição. Algumas pessoas não separam o lixo em casa e o meu trabalho é recolher o que ainda pode ser recuperado ou reaproveitado. Que nojo! Sem dúvida, o coco, o sol e os olhares das pessoas, não foram piores que a sensação de ter um daqueles bichinhos que comem comida podre no meu braço. Que cheiro horrível! Tentei disfarçar, mas não deu. A Maria começou a rir e a rir sem parar. Uma vontade imensa de vomitar se apossou de mim. Então minha chefe disse: você coloca a mão em cada coisa! Nesse momento percebi que o dinheiro no final do dia era essencial, mas nem por isso eu precisava realizar a difícil tarefa de separar os recicláveis das coisas empobrecidas.
Passado esse momento fomos ao depósito para pesar o que pegamos e receber o sacrificado dinheirinho. Os quase 70 quilos que puxei me renderam muitas dores e preciosos 10 reais. Quando voltava para minha realidade, conclui que apesar de todas as dificuldades que essa classe enfrenta, ela não perdeu a dignidade e ao contrário de mim se reserva a não colocar as mãos em determinados objetos descartados.

Um comentário:

  1. PARABENS! mto inspirador vc ter essas experiencias para relatar os fatos.. e nao so escutar oq dizem. desejo q vc tenha sucesso sempre! parabens pelo projeto.. beijos mil

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